9 ° capitulo Os resultados da furunfação
Capitão do
mato
de Rugendas
Custódia de Jesus amava de paixão a “Três
Pernas”, e essa a amava como um louco.
Mais, com tanto tcha tcha na butchaca ela
acabou buchuda.
Cristóvão de Jesus e Etelvina da Luz nem
desconfiavam do que estava acontecendo bem embaixo de seus olhos.
As regras não vinham, e Velha Zeferina já
estava preocupada, mas não falava nada com ninguém, nem com a benzedeira de
plantão que tentava “aliviar os males da miúda”.
A moça, muito pelo contrário, estava
serena como nunca, estava em estado de graça, pois estava desconfiada que ia
ter um filho do homem amado.
Para ela não importava se ele era mulatão
forte, capoeira, conhecido da polícia, que trabalhava como feitor de “Tigres”,
afinal ele era empregado de seu pai, que ganhava dinheiro transportando a merda
da cidade.
Estava feliz.
Capoeira de
Rugendas
“No século XVI, era costume dos povos
pastores do sul da atual Angola, na África, comemorar a iniciação das jovens à
vida adulta com uma cerimônia chamada n'golo (que significa "zebra"
na língua quimbunda). Dentro da cerimônia, os homens disputavam uma competição
de luta animada pelo toque de atabaques em que ganhava quem conseguisse
encostar o pé na cabeça do adversário”.
“Com a chegada dos invasores portugueses
e a escravização dos povos africanos, esta modalidade de luta foi trazida,
através do porto de Benguela, para a América, especialmente para o Brasil, onde
se fixou a maior parte dos escravos africanos trazidos à América. Porém a luta
também chegou à ilha caribenha da Martinica, onde continuou a ser praticada com
o nome de ag'ya, ladja ou danmye”,
“A capoeira passou então a ser utilizada
em brigas de rua. Formaram-se as chamadas "maltas de capoeira",
grupos de desordeiros que acrescentaram a navalha e a bengala aos movimentos da
capoeira. As maltas eram contratadas por políticos para desorganizar e fraudar
eleições. Os capoeiristas também eram contratados para servir de segurança de
bares e boates. As maltas passaram a ser combatidas pelo governo e a capoeira
foi quase extinta. O código penal brasileiro de 1890 incluía a prática da
capoeira na lista dos crimes”.
“Á Três Pernas” meus pais jamais o
aceitarão como genro, e isso é um transtorno”, pensava Custódia.
“Mais, por mim, dane-se. Tudo bem comigo
e com meu homem, além do que tou prenhe do filho dele”.
Custodia e Catarina conversavam sobre o
assunto e a Garcia revelou que ‘estar gravida ou não’ jamais foi sua
preocupação, pois “ter filho de padre
não é problema, mas de um escravo, e escravo que carrega merda, é um
transtorno’.
“A lá isso é verdade.”
E ficaram as duas numa cavaqueira que
parecia que nunca ia terminar.
Catarina contou a frei Cândido, que
não contou a Zaphira, mas perguntou a “Três Pernas”, que confirmou.
“E agora?”
“Sei lá, sinhô. Vai ser como Deus
quiser”.
No jantar, “seu” Cristóvão perguntou a mulher
se não achava que a ‘miúda’ estava bem gordinha.
“É assim mesmo na idade dela”, respondeu
a senhora sem levantar o rosto da gamela de galinha de cabidela.
O assunto morreu.
Mais, a prenhes começou a ser notada.
Estácio de Sá havia ocupado a Ilha de
Paranapuã, a atual Ilha do Governador, local de origem da Tribo de Arariboia
(nome tupi que significa "cobra-papagaio), o chefe da tribo dos temiminós,
grupo indígena tupi, que havia sido expulso dela pelos índios tamoios.
Arariboia, aliado do Rei de Portugal
contra os franceses de Villegagnon, depois da expulsão desses, recebeu da Coroa
uma sesmaria no outro lado da Baía de Guanabara, com a missão de proteger a
entrada da Barra, o acesso a cidade do Rio de Janeiro.
Tal sesmaria recebeu o nome de São
Lourenço dos Índios, a qual foi o início da atual cidade de Niterói (termo que,
traduzido da língua tupi, quer dizer "rio verdadeiro frio", pela
junção de 'y, "rio; eté, "verdadeiro"; e ro'y,
"frio"). Arariboia se converteu ao cristianismo e adotou o nome de
Martim Afonso de Sousa, em homenagem ao homônimo navegador português.
Niterói era naquela época denominada “da
Banda D'Além”, mas foi em São Lourenço, hoje um bairro, que Arariboia fundou a
cidade, e até hoje existe a mais antiga igreja da cidade, a Igreja de São
Lourenço dos Índios, localizada no outeiro do mesmo nome.
Frei Cândido era amigo de um
frade que trabalhava nessa Igreja de São Lourenço dos
Índios, e entrou em contato com ele para juntos protegerem ao casal e mais
ainda o pimpolho que depois de nascido poderia ser levado por Cristóvão para ‘a
roda dos expostos’, o que ele considerava um crime.
“A roda dos expostos ou roda dos
enjeitados consistia num mecanismo utilizado para abandonar (expor na linguagem
da época) recém-nascidos que ficavam ao cuidado de instituições de caridade. O
mecanismo, em forma de tambor ou portinhola giratória, embutido numa parede,
era construído de tal forma que aquele que expunha a criança não era visto por
aquele que a recebia. As primeiras Santas Casas de Misericórdia da América
Portuguesa que receberem a roda dos expostos foram as de Salvador (1726) e a do
Rio de Janeiro (1738)”.
Mais, tinha o problema financeiro.
Frei Candido conseguiu
convencer a frei Américo Bordallo, a lhe emprestar uma boa importância afirmado
que precisava mandar para Metrópole, para sua mãe adoentada.
A mãe dele já estava morta a muito tempo,
só que o velho caduco não sabia disso.
Assinou uma confissão de dívida no edil
tabelião, mas sabia muito bem que jamais teria dinheiro para pagar.
Mais, a causa valia a pena, nada de
criança na roda dos expostos.
Levou “Três Pernas” para conhecer o amigo
lá na a Igreja de São Lourenço dos Índios, e depois o entregou o dinheiro.
E os dois fugiram.
Baixou desespero.
Só quem conhece uma família portuguesa
sabe o que aconteceu depois da notícia.
Houve choro e ranger de dentes.
Braços para o ar e desmaios.
Muitos gritos e muitas lamentações.
Muitos clamores a Jesus Cristinho e a
Nossa Senhora da Conceição.
Vestiram luto.
E nunca mais foram os mesmos.
Depois de algum tempo, Cristóvão de Jesus
vendeu todos os seus interesses nas terras para seu sócio, Manuel Garcia.
Por Catarina souberam da dívida de
frei Cândido, e Cristóvão de Jesus a pagou sem nada dizer o porquê a
frei Américo.
No primeiro navio que conseguiram
voltaram para Portugal.
Nunca mais se ouviu falar deles.
De “Três Pernas” se ouviu que ele era o
melhor “capitão do mato” que atuava entre a Paróquia da Igreja de São Lourenço
dos Índios e a Capitania do Espírito Santo, chegando a adentrar pelo Caminho da
Bahia.
Numa fazenda no meio do Caminho, Custódia
criava uma penca de 12 filhos, e era feliz.
E eram felizes.
E um de seus filhos veio a ser Senador do
Império nomeado por Dom Pedro II para compor a Câmara do Senado.


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