13 ° capitulo “acto filhamento"
Com o prestígio da Intendências de Polícia não foi difícil
acomodar Dona Sebastiana e sua comitiva na Corte.
Ela e as moças ficaram no Convento da Ajuda, os capangas no
quartel dos homens da Intendência.
Eles não gostaram de ficar longe da sinhábastiana, como eles
a chamavam.
O encontro foi combinado para uma das salas do Paço Real, no
Terreiro do Paço, atual Praça XV de novembro.
Dom José João chegou primeiro.
Depois Dona Sebastiana com seu séquito completo acompanhada
solenemente por Paulo Fernandes Viana, Intendente Geral de Polícia, e por
Antônio Luís Pereira da Cunha, oficial da Intendência.
Podia-se cortar o ar com uma faca.
Reverencias, saudações de praxe, e a entrevista começou só
com os dois interessados, os demais foram para a sala ao lado.
A verdade foi revelada com tranquilidade.
Sem choros, sem magoas, sem acusações, de maneira para lá de
civilizada.
Combinaram uma nova entrevista agora na presença do Príncipe
Regente.
Dom João os recebeu dias depois no Paço da Quinta da Boa
Vista.
Ficou acertado que Dom José João devolveria a Coroa os
Títulos de Marquês da Torre da Vila Nova da Ria Formosa e o de Conde de Vila
Nova da Ria Formosa.
Que Bernardo Agostinho de Lambert por mercê regia receberia o
“acto filhamento", ou seja, passaria a ter o “foro de fidalgo”,
nomeadamente de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, e concedida honras de Marquês.
Que Bernardo Agostinho de Lambert e Brigância por outorga
régia passaria a usar o título de "Dom".
Que Dom Bernardo Agostinho de Lambert e Brigância por Carta
Regia do Príncipe Regente seria elevado a Marquês da Torre da Vila Nova da Ria
Formosa, e Conde de Vila Nova da Ria Formosa, de juro e herdade (elevação hereditária, que passaria de pai para
filho), conforme pedido formal do antigo titular Sua Alteza o Duque de
Brigância a sua sobrinha a Augustíssima Senhora Dona Maria I, Rainha de
Portugal e Algarve e do Império Português.
Que Dom Bernardo Agostinho por alvará receberia o tratamento
de Excelência e o direito de usar as antigas Armas do senhorio da Vila Nova da
Ria Formosa com a coroa de Marquês, com registros realizados nos livros
competentes pelo Rei d’Armas.
Que com consentimento de Dom João, Dom Bernardo Agostinho de
Lambert e Brigância estava recebendo do Duque de Brigância os direitos e posse
do senhorio da Vila Nova da Ria Formosa, no Reino do Algarve, conforme
documento firmado de próprio punho por Sua Alteza Dom José João, com a chancela
de Sua Alteza o Príncipe Regente.
Que estes atos seriam escritos, por ordem expressa do
Príncipe Regente, no Livro da Mordomia-Mor, antigo Livro das Matrículas da Casa
Real, Registro Geral de Mercês, já que “o Regimento da Mordomia-Mor previa
ainda situações atípicas, em que filhos ou netos ilegítimos de fidalgos
poderiam ser filhados”.
Vemos que Dom João concordou com tudo, pois tinha uma dívida
de gratidão e gostava muito, mas muito, de seu tio tão parecido fisicamente com
a senhora sua mãe.
Com os Diplomas nas mãos, Dom José João, foi procurar os
representantes de seus bancos em Amsterdam, e ordenou que cinquenta por cento
de todos os seus bens passassem para Dom Bernardo Agostinho de Lambert e
Brigância, o novo Marquês da Torre da Vila Nova da Ria Formosa, e novo Conde de
Vila Nova da Ria Formosa, morador em São Salvador da Baia de Todos os Santos,
na Vila do Conde, o que foi fácil para eles por já ser o novo nobre correntista
dessas instituições.
O restante ficaria à disposição dele, o Duque, e depois de
sua morte que fosse cumprido o testamento cerrado, que estava em poder de Paulo
Fernandes Viana, Intendente Geral de Polícia.
Mais, para garantia entregou a cada representante uma cópia,
também, cerrada.
Com isso tudo feito, Dom José João foi ao Convento da Ajuda e
entregou a Dona Sebastiana, que nesse momento, só nesse momento, chorou
abraçada ao pai de seu filho amado.
Tempos depois Dona Sebastiana, e seu séquito, embarcou para a
Bahia, pelo “Mimosa”, custodiado pelo mesmo HMS London, cujo capitão foi
comunicado que no navio que ele ia escoltar estava um membro da Família Real,
portanto que tivesse o máximo cuidado, mas sem dizer quem era para evitar
fofoca.
O “Mimosa” ainda não tinha entrado na Barra, em sua chácara
nas fraldas do Corcovado, nas “Águas Férreas", na Vila Brigância, em sua
grande cama de jacarandá da Bahia, morria feliz, pois tinhas um filho varão,
que continuaria com os títulos de sua Casa e o seu nome ducal, Sua Alteza Dom
José João, Duque de Brigância, o famoso negreiro corsário “O Português”.
E seu sobrinho-neto lhe concedeu um sepultamento no Convento
da Ajuda com as honras dadas ao Reis da Casa de Bragança.
Quando retornou a Portugal, em 25 de abril de 1821, após uma
permanência de treze anos no Brasil, do qual levou saudades, Sua Majestade
Fidelíssima Dom João VI, levou consigo os restos mortais de sua mãe, a Rainha
Dona Maria I, falecida em 20 de março de 1816, e os sepultou num mausoléu na
Basílica da Estrela, igreja que ela mesma mandou erguer, e os de Dom José João,
Duque de Brigância, que mandou sepultar ao lado dos pais no senhorio da Vila
Nova da Ria Formosa, no Reino do Algarve.
Dom João chorou e muito a perda de seu tio, amigo e
conselheiro.
Era a vida no aprazível Brasil joanino.
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