2° capítulo “A pulga atrás da orelha”
Engrácia, o trapo, Sebastiana, Jean-Luc, Bernardo Agostinho, que confusão.’
“O
que é isso meu Jesus Cristinho?”
“O
que é isso minha Nossa Senhora da Conceição?”
“Será?
Será? Não pode ser!!!”
“Eu
também sou bastardo, será??? Será que fiz um?”
Estava
Dom José João, o Duque de Brigância com uma bela pulga atrás da orelha.
Mas, voltemos no tempo.
Apesar de seus pecados da carne, o Sumo Pontífice muito se agradava com
o ouro do Brasil que lhe era presenteado pelo Rei de Portugal, tanto que para
demostrar seu contentamento Clemente XI, a 7 de Novembro de 1716, elevou a Sé
de Lisboa à condição de Patriarcado de Lisboa pela bula áurea «In supremo
apostolatus solio».
Eu não sei se o Papa sabia que o Rei teve até um filho com uma freira,
Madre Paula aquem cobriu de luxo a ponto de dar para ela uma “banheira de prata
maciça” mandada fazer na Inglaterra pelo Soberano e é claro paga com o ouro do
Brasil, e esse gosto o levou a ser cognominado de O Freirático, mas
isso é intriga de outros tempos.
E
no capítulo anterior vimos que El-Rey Dom João V só reconheceu seus filhos
ilegítimos, os famosos Meninos da Palhavã, depois de morto.
Vimos,
também, que N deu um filho N a El-Rey Dom João V.
Quem
sãos os N?
Os
N não gostavam da Lista Oficial dos Bastardos de Dom João V por vontade dele,
El-Rey, porém todos sabiam de quem se tratava, era um Segredo de Polichinelo,
ou seja, “uma informação que devia ser secreta, mas que é do conhecimento geral”.
Contudo
vamos lá.
N
era uma das “mulheres limpas de todo sangue infecto" com quem El-Rey se relacionou desde
menino.
Tinha
estofo de nobreza.
Dom João brincava com os filhos da Alta Nobreza cujos pais estavam de
serviço junto ao Soberano.
Entre os meninos estava Dom Thiago Matheus, filho dos
Marqueses da Torre de Vila Nova da Ria Formosa.
Entre as meninas Dona Sophia Augusta, filha do
viúvo Conde de Malha-Alva, que havia se casado em primeiras núpcias com Emília
da Taubaté, essa filha única de Pedro de Taubaté, Visconde de Sabugosa,
riquíssimo “brasileiro”.
Em 1696 os jovens foram armados
Cavaleiros da Ordem de Cristo em memorável cerimônia pelo Rei Dom Pedro II, o
Pacifico, que muito contribuiu para a exploração do Brasil, e sobre ela deixou
uma descrição o padre Francisco de Santa Maria.
Dona Sophia Augusta, a pedido
dela, se retirou para um convento a fim de viver uma vida contemplativa.
Em 1 de janeiro de 1707, na Cidade
de Lisboa, Dom João V foi coroado.
O novo Soberano queria ficar
rodeado por seus amigos, e assim foi ordenado a Dona Sophia Augusta, que não
havia tomado o habito, sua volta a Corte, o que fez com muita relutância.
Um belo dia apareceu grávida.
O pai da criança era El - Rey Dom
João V.
Ora, como sabemos ela era filha do
opulento e influente Conde da Malha-Alva e por isso as coisas não podiam ser
tratadas de maneira irresponsável, tinham que ser tratadas como negócios de
Estado, as despesas e um substancial dote tinham que ser pagos por El-Rey, mas
isso não era problema, pois havia o ouro do Brasil.
Dom João V pediu então a um amigo
comum, Dom Thiago Matheus que se casasse com Dona Sophia Augusta.
El-Rey ficou tão grato a Dom
Thiago Matheus que o nomeou Embaixador Plenipotenciário e Ministro
Extraordinário junto a Sua Majestade Cristianíssima o Rei de França e de
Navarra, Luiz XIV, o Rei Sol.
O casal logo partiu para a França
indo se instalar em um elegante Hôtel particulier nas cercanias do
Palácio de Versalhes.
E foi nesse ambiente de luxo
francês que nasceu Dom José João.
Oficialmente descendente direto da
Primeira Família Fidalga e da Segunda Família Fidalga, já citadas, mas com o
mais puro Sangue dos Bragança, pois na realidade era filho natural de Sua
Majestade El-Rey de Portugal, o senhor Dom João V.
Como todo bastardo o recém-nascido
era a cara do pai verdadeiro, e parecidíssimo com seu meio-irmão Sua Majestade Fidelíssima Dom
José I, Rei de Portugal e dos
Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista,
Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc....
Descobrimos que N é senhora Dona
Sophia Augusta, e o outro N é Dom José João, o Duque de Brigância.
No retorno da família do Marquês, Sua
Majestade Fidelíssima o ordenou que:
a- Dom
Thiago Matheus foi confirmado com Título de juro
e herdade de Marquês da Torre de Vila Nova da Ria Formosa, Fidalgo do
Conselho, e outras mercês;
b- Dom José
João foi confirmado o Título de Conde de Vila Nova da Ria Formosa, Fidalgo
Cavaleiro da Casa Real, e outras mercês.
Todavia com 16 anos Dom José João
descobriu que era bastardo de El-Rey.
Ficou magoado com a vida.
Ficou muito magoado com os pais.
Ficou magoado com El-Rey.
Algo fazia com que o jovem fidalgo
fosse cada fez mais para zona ribeirinha do Tejo, até que um dia, na Corte, ele
ouviu gracinhas de uma rapaziada mais velha sobre a beleza e formosura física
de sua mãe, e de como invejavam El-Rey por tê-la tido nos braços e na cama.
Furioso saiu em defesa da honra
materna, mais foi chamado de ‘bastardinho’ por um Príncipe, sobrinho de El-Rey,
que na hora passava pelo local e isso lhe foi mortal.
Deste dia em diante colocou na
cabeça que partiria para as Índias.
Em silencio, às escondidas,
começou a se preparar para a fuga.
E fugiu.
Depois de muito andar pelos Sete
Mares corsariando, e se tornou o temível e respeitado capitão corsário “O
Português”.
Com seu navio avariado aportou na
Bahia, sempre a Bahia, e conheceu Dona Sebastiana do Engenho do Toco.
Furunfararm até não poder mais.
Um dia durante os festejos,
Engrácia da Silva, a fofoqueira mor da Bahia, se aproximou de Dom José João
para contar as novas do Reino, pois de lá havia retornado pelo “Airosa”.
Sem mais aquelas o Fidalgo ficou
mais branco do que alma penada e se desvencilhado de todos, se pôs a correr em
direção ao Palácio à procura do Vice Rey.
De um só folego contou ao Marquês
de Lavradio o que a tal de Engrácia da Silva lhe dissera e de supetão perguntou
ao homem se era verdade.
O Vice Rey, mas pálido do que
roupa de anjinho de procissão, disse que sim, que era verdade.
Devagar, pausadamente, Dom Luís de
Almeida Portugal contou o que realmente aconteceu logo que foi constada a fuga
deles.
Um furioso senhor Dom João V, aos
gritos, dera uma surra publica, em frente de toda a Corte, em Dona Sophia
Augusta, sua mãe, e tirou todas as regalias do casal.
Ordenou ainda que eles se
exilassem na Torre do senhorio da Vila Nova da Ria Formosa e que nunca mais
voltassem a sua Real Presença.
Eles fecharam o Palacete de
Pernão, e foram.
Segundo consta o Marquês fez de
tudo para que Dona Sophia Augusta superasse a crise, mas foi em vão.
O tempo passou.
O Marquês ficou descuidado, daí
quando de uma caçada em seus domínios, seu cavalo empinou, corcoveou, o derrubou
e caiu por cima de sua perna.
Debaixo de muito sofrimento Dom
Thiago Matheus veio a falecer quando da amputação malfeita de sua perna.
Dona Sophia Augusta com essa perda
enlouqueceu de dor.
Ela ainda vivia, mas totalmente
ensandecida, tanto que todo o dia subia a Torre e das ameias gritava o nome do
filho, José João, e implorava que ele voltasse.
O Marquês de Lavradio, jurou que
não falara do assunto porque imaginava que ele soubesse e que não queria mexer
nas feridas daquele que se tornara um amigo.
Pela primeira vez na vida José
João desmaiou com uma notícia.
Foi levado aos aposentos do Vice
Rey pela criadagem, tendo febre alta durante dias.
Dona Sebastiana não arredou pé da
sua cabeceira.
A febre cedeu.
Dom José João, agora um fiapo
humano, consegui sentar sozinho no leito.
Soube da dedicação de Dona
Sebastiana pelo Marques de Lavradio.
Dois dias depois da melhora os
ainda apaixonados conversaram muito.
Pediu que o Vice Rey fosse aos
aposentos e depois de agradecer muito pela lealdade e amizade comunicou que em
três dias deixaria de ser seu hóspede.
E ordenou a partida.
O embarque se deu na frente de uma
solene Dona Sebastiana, de Dom Luís de Almeida Portugal, que emocionado torcia
as mãos, das autoridades civis e eclesiástica, do povo, e todos do Solar do
Conde que choravam, pois aprenderam a amar aquele homem que fez sua Sinhá rir
novamente, e agora de felicidade.
Na Cabine do Capitão ficaram por
algum tempo sozinhos Dona Sebastiana e Dom José João.
Como o vento estava favorável,
zarparam em direção ao Mar Oceano.
Ninguém olhou para trás, ninguém
olhou para São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Capital do Brasil.
Mais porque partiram de repente e
de forma tão rápida?
O motivo foi que o fidalgo queria
chegar logo a Portugal, ir para suas terras, para tratar de sua mãe doente.
A viagem ocorreu dentro da
normalidade.
Dom José João Mouzinho de Pernão
foi colocado em terra firme nas praias do Algarves por seus homens, por seus
antigos comandados, de pés enxutos.
Porem
o nobre senhor se esqueceu de Sebastiana do Engenho do Toco, em seus delírios,
quando esteve bem doente, achava que ela era uma sereia que o tinha encantado
em um dos Sete Mares.
E
como é comum com muita gente a relegou ao fundo de sua mente.
Mas,
no aprazível reino joanino ele tinha muito tempo para pensar e falando de si
para si, exclamou:
O
passado não morre, estará sempre presente”.
Cerimônia
do Beija-mão
Quando
a Rainha aportou na Bahia o senhor Dom João, o Príncipe-Regente, ofereceu ma
cerimonia de “Beija-mão”, quem quisesse que fosse lá beijar a dele e obviamente
o local ficou lotado.
Entre
as pessoas que lá foram estava a fofoqueira- mor da Bahia, sinhá Engrácia da
Silva, a aquela que contou a Dom José João o que havia acontecido com seus pais
em Portugal, se aproximou do Duque de Brigância, e com um desagradável sorriso,
numa reverencia para lá de espalhafatosa, perguntou se dela não lembrava.
Seco,
frio, Sua Alteza disse que sim.
Mais,
ela não se fez de rogada e babando como cão raivoso insistiu na conversa apontando
a Jean-Luc de Lambert.
“Está
Vossa Alteza vendo aquele mulato garboso?”
“Ele
é Jean-Luc de Lambert.”
“Foi
ele que casou com Dona Sebastiana do Engenho do Togo.”
“E
são pais de um belo moço, Bernardo Agostinho.”
Parou
para saborear o que revela.
“Vossa
Alteza precisava ver que belo rapaz ele é “, e torcendo o corpo com a força de
um orgasmo completou, “falo do filho de
Dona Sebastiana.”
E
quase desmaiou de tanta emoção com sua fofoca máxima a fofoqueira- mor que se
gabava sempre de assim ser.
Ela
não perdia nunca uma oportunidade e essa foi supimpa, pois fofocou com o tio da
Rainha que aportou na Bahia.
Dom
José João gelou.
Interrompeu
a conversa.
Fez
uma mesura.
E
foi se sentar no outro cômodo.
“Não
se lembrava de Sebastiana a tempos, anos, e agora, na Bahia, e a lembrança fez
ele quase desmaiar de emoção.
“Será
emoção ou estou me arrependendo de não ter dado a devida atenção a Sebastiana,
aquela mulher fogosa, que tanto me deu e que de mim nada recebeu?”, pensou o
Velho Senhor.
Queria
ter informações sobre tudo isso.
“Sou
um homem de coragem, ou um rato?”, completado o pensamento.
Recomposto,
entrou na sala e pediu a Lisboa que o apresentasse ao Senhor de Lambert.
“Pois
sim, Alteza”, falou Lisboa.
Apresentações
feitas.
Lambert
era um homem educadíssimo e conhecia toda a história de sua esposa com aquele
Príncipe, mas em nenhum segundo da conversa demostrou saber o que sabia.
José
João perguntou por Dona Sebastiana, a classificando de uma velha conhecida.
Perguntou
do filho, quantos anos tinha, blábláblá...
Por
onde andavam, se não iam ver o Príncipe Regente, blábláblá...
Que
ele teria muita satisfação em revê-la e de conhecer o moço, enfim, numa lenga
lenga interminável, interrompida porque um camareiro de Dom João veio dizer que
o Príncipe pedia a presença dele junto ao Trono improvisado.
Civilizadamente
se despediram.
Mais,
nenhuma promessa de Monsieur de Lambert foi feita quanto a visita da mulher e
do filho ao Príncipe Regente, muito menos ao Duque de Brigância.
No
canto da sala, Engrácia da Silva, a fofoqueira mor, babava de contentamento,
mas uma ‘fofoca’ para ela espalhar por toda Bahia.
Jean-Luc
a viu, e logo compreendeu.
Mirou
–a com um olhar tão frio, tão gelado, tão de outro mundo, que a mulher quase
morreu ali mesmo.
“Aí
meu Deus!!! Que fiz eu? Sebastiana já matou e é capaz de me matar”, e saiu
correndo em direção onde estavam os pinicos para se aliviar, vontade súbita que
veio por causa do medo que sentia.
Mais,
nem eles vieram do Toco, nem tão pouco Dom José João ficou na Bahia para
conhecê-los.
Entretanto,
Sua Alteza Dom José João, Duque de Brigância, tio da Rainha que aportou na
Bahia, ficou com a pulga atrás da orelha.

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