16 ° capitulo As averiguações


“Todavia, não há nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz”, pensava Agostinho que não dormiu.
Estava nervoso, irritado, chegando a expelir fogo pelas vendas, como se dizia no antigamente sobre quem estava furioso.
Parecia um velho Inquisidor que metia medo nos Cristãos-novos, nos judeus escondidos.
Engoliu o pequeno almoço, e foi para a rua com suas vestes de sacerdote.
Negro, negro como as asas da graúna, como a noite escura na Transilvânia.
Com o capuz enterrado na cabeça não dava nem para ver o seu rosto branco e bonito como uma das figuras pintadas por El Greco no quadro “A Abertura do Quinto Selo”.
Suas mãos estavam enfiadas nas mangas do habito, o que lhe dava um ar mais sinistro ainda.
Sinistro como um urubu de Pedro no galho vendo uma vaca morrer no sertão do Cariri.
Quem por ele passava se benzia imediatamente.
Quem podia fugia.
Era assustador.
Foi a antiga Casa Paroquial de Candido.
Meteu medo no padre Maciel, o novo pároco, que literalmente colocou os bofes pela boca e cagou-se até não poder mais, até dar nó nas tripas.
Ainda sujo de merda, fedendo a cu mau lavado, com gosto de bosta na boca, falou o que sabia, e o que não sabia, dos dois pilantras.
Agostinho foi para a Igreja e nela deu plantão.
Quando desconfiava chamava o padre cagão e mandava levar a pessoa para a sacristia, onde de porta fechada, exprimia, colocava medo, impunha terror, além de ameaça-la de mete-la a ferros.
Prendia o entrevistado na casa paroquial para que ele não avisasse aos outros e esses sumirem da Igreja.
Quando chegou a beata Mariquinha, a irmã do Prazeroso, foi uma festa.
Apertou a mulher, que de santa não tinha nada, e ficou sabendo de coisas do arco da velha.
Mandou chamar o moleque de recado da paróquia e ordenou que ele levasse urgente uma mensagem a Casa da Mãe do Bispo.
Rapidinho uma parte da Guarda do Bispo, negros de dois metros com porrete nas mãos, já estava na Igreja.
O capitão Carlos de Meira se pôs à disposição.
Mais, nessa uma hora os dois suspeitos já estavam nas mãos de Frei Agostinho.
Explico:
O primeiro foi Alfredo Prazeroso, La mano del ángel, que bastou ver a irmã chorando num canto para tremer como se tivesse Doença de São Guido.
Apos ter levado um bofetão de Agostinho, e ser ameaçado com os ferros nas naus, contou tudo.
“Reginaldo contou pra ele que me comia, e ele quis comer.”
“Reginaldo pôs preço e ele aceitou.”
“Reginaldo ficava assistindo e depois recebia o pagamento.”
“Um proxeneta esse tal de Reginaldo”, falou Carlos de Meira.
“Mas, depois, eu dava escondido de Reginaldo porque adorava aquele pênis enorme e gostoso, desculpe padre, para eu tocar punheta nele, e me apelidou de La mano del ángel.”
“O senhor gosta dessa orgia pecadora, não é?”
“Gostava, gostava padre, não gosto mais”, falou tremelicando.
O pároco fedorento e cagado entrou na sacristia e cochichou algo com Frei Agostinho.
“Traga-o já aqui”.
Reginaldo Giordani era arrogante, e quando viu a cena, logo gritou histérico:
“Que é isso?”
“Que tá acontecendo aqui seu tibira ?”, perguntou gritando todo nervosinho voltado para o Prazeroso.
“Quem faz as perguntas aqui sou eu, sou eu, Frei Agostinho da Crucificação e do Santo Sepulcro, frade Investigador, por ordem de Sua Excelência o Bispo do Rio de Janeiro.”
“Como eu vou saber se é verdade? Que você é quem diz? Eu o vi sem essa roupinha aí, na Igreja, e não fui com a sua cara?”
Levou um sopapo tão forte que caiu sentado.
“É assim que eu trato os somítigos, os sodomitas, os fanchonos, os que pecam pelos anus, quer mais???”
“O que você quer padreco?”
“Quero a verdade, senão vai ser levado daqui a ferros, entendeu???”
“Foda-se. Foda-se. Eu não tenho nada a dizer”.
Carlos de Meira partiu para cima de Reginaldo e foi nessa hora que La mano del ángel se mijou todo e caiu no chão de joelhos.
Vendo isso, Carlos de Meira, se postou por trás de Alfredo e colocou a mão em seu ombro
“Conte tudo. Vai sofrer menos”, falou no ouvido do mijão.
“Um dia estávamos os três aqui na casa paroquial, e Virginiano Dendeca, que sempre vinha pegar umas patacas com frei Cândido, nos flagrou.”
 “Foi por essa época que frei Candido se tornou Inquisidor no Bispado.”
“Só que ele agora tinha que dividir a casa com o padre Maciel e assim ela não estava a disposição aos domingos para nossas safadezas.”
“Com desculpa de que era para retiro espiritual, ele conseguiu uma tapera lá para os lados da praia de Santa Luzia”.
“Virginiano Dendeca ficou sabendo, mas não teve coragem de chantagear o Inquisidor”.
“Mais, nos chantageou.”
“Falamos com frei Candido e ele riu da nossa cara.”
“Falou um monte de merda.”
“ Somítigo pervertido e cáften tem mais é que sofrer”, e riu da gente.
“Vão fazer o que contra mim, o que?”
“Chantagem?”
“Eu mando colocar os dois a ferros, ponho numa sela e jogo a chave no mar.”
“Reginaldo ficou bravo e sacou da faca da bota foi pra cima dele e lhe cortou a garganta”.
“Ele estrebuchou até não poder mais”.
Um guarda de Carlos de Meira pulou em cima de Reginaldo e tirou a faca da bota.
“E esse tal de Virginiano foram vocês que mataram? “
“Nós vimos vossa mercê conversando com ele, e resolvemos mata-lo”.
“Você é um escroto mesmo. Um covarde. Um filho da puta burro, ...”, e Reginaldo levou outro bofete agora daquele guarda que o havia desarmado.
“E o dinheiro dele?”
“Estava escondido no chão da Casa paroquial, padre Maciel nem desconfiava.”
“Numa hora que ele estava bêbado o Virginiano pediu dinheiro para levar para Zaphira e aí nós o vimos mexer no soalho e pegar moedas de ouro.”
“Com ele morto, nos dividimos o ouro e as joias.”
“Cala essa matraca seu merdalhão, cala porra de boca, caralho”, falou Reginaldo transtornado.
“Agora além de assassino são ladrões da Santa Madre Igreja, porque dinheiro de padre é da Igreja. Bonito isso”, falou o frade.
“Leve-os, por favor, Capitão”.
E a beata Mariquinha, Alfredo e Reginaldo, saíram amarrados para uma cela no porão do Palácio Episcopal.
E Frei Agostinho da Crucificação e do Santo Sepulcro foi oficialmente esclarecer a Mae do Bispo e ao próprio Bispo o que havia acontecido.
O Bispo, por ordem da mãe, mandou um mensageiro para o presidente da Câmara, que chegou correndo.
Frei Agostinho explicou que os dois rapazes, que eram da Igreja de Frei Candido, haviam seguido o Inquisidor até uma tapera lá para os lados da praia de Santa Luzia onde ele realizava seus recolhimentos espirituais.
Que eles se desentenderam com o Inquisidor , e num acesso de raiva o mataram.
Que, também, mataram Virginiano porque esse estava ameaçando contar as autoridades o assassinato e eles não queriam ser presos.
Que os pertences valiosos da Igreja estavam em suas casas e se fazia necessário recupera-los para o bem do rebanho do Bispado.
“Claro. Claro. Claro”, falou o recém-chegado.
E para espanto dos Giordani os pertences da Igreja foram achados enterrados no galinheiro de fundo de quintal.
Bem como o restante foi achado na casa de La mano del ángel bem debaixo do catre onde dormia Mariquinha.
“É frei Agostinho foi por isso que o chamei”, falou o Bispo satisfeito com o desfecho.
Olhando para o frade português o presidente da Câmara só pensou em sair correndo dali, tinha um medo danado da Santa Inquisição, apesar de ela não ter mais a força que tinha.
Nessa explicação toda as senhoras e as crianças, conforme Agostinho combinara com Manuel, ficaram de fora.
Frei Agostinho saiu da Hospedaria do Garcia e foi se instalar no Paço Episcopal do Morro da Conceição, para alegria do Bispo.
O presidente da Câmara fez uma proclamação sobre os crimes dos moços, pois no Rio Joanino as notícias corriam ao sabor do vento, conforme explicado por “um bispo comprometido e zeloso por seu rebanho, e que os presos iam ser julgados, e graças aos céus os bens da Santa Madre Igreja foram recuperados.”
Nada mais.
Manuel e os Garcia ficaram satisfeito.
Zaphira, mãe de Nominanda dos Anjos, idem.
Nem a mãe de Reginaldo quis vê-lo.
A casa e os bens dos Prazeroso, conforme a tradição, foram incorporados ao Bispado.
Agostinho foi visitar a Chácara dos Garcia no Engenho Velho para contar as boas novas e ficou impressionadíssimo com Catarina, que coquete se desmanchou em charme.
Não viu Zaphira.
Alfredo Prazeroso, La mano del ángel, apanhou muito e quando foi a julgamento estava desfigurado, perdera os dentes e quase não abria a boca.   
Foi enforcado em praça publica para gaudio do populacho.
A beata Mariquinha já dava sinal de loucura e ficou esquecida no cárcere até se jogada na rua e morreu perambulando pela cidade.
Reginaldo Giordani foi morto por outro detento em uma briga antes mesmo de ser julgado.
Suas histórias sumiram com a poeira levada pelo vento.
Todavia, não há nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.

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