15 ° capitulo Na Chácara dos Garcia no Engenho Velho.
Lá foi Agostinho dos Santos montado numa mula requenguela.
Guiado por um simpático escravo de ganho que falava mais do
que a boca, montado num jerico em final de carreira.
No portão da chácara já tinha um escravo esperando por ele,
que dispensou o guia e suas animálias da pior qualidade.
“Sinhô. O padrão manda vossa mercê de volta num dos nossos
animais”, falou o preto de cabeça branca, já bem velho, pois como diz o ditado
popular: “negro quando pinta tem mais de 130", numa alusão ao surgimento
tardio dos cabelos brancos nos africanos.
Levou Agostinho através do bem cuidado jardim até a porta da
Casa, e fazendo uma reverencia se retirou.
Uma senhora vestida toda de branco, com turbante colorido a
cabeça, o recebeu e o levou para uma sala avarandada com moveis de jacarandá e
palhinha.
Na mesa de centro, com tampo de mármore, tinha uma garrafa e
copos de estanho, com suco de maracujá, que ele ofereceu, que de bom grado
Agostinho aceitou.
Fazia um muito calor la fora, mas dentro da sala o ar era
fresco reconfortante.
Manuel Garcia entrou na sala.
Agostinho ia se levantando, mas o português não deixou com um
largo sinal com as mãos.
“Vou ao assunto, padre Agostinho”, frisou o homem.
“Padre?”
“Sim padre”.
“Raimundo de Magalhães é muito meu amigo e me contou o que
houve na casa da Mãe do Bispo.”
“Foi sugestão dele a D. Ana Teodora Ramos de Mascarenhas
Castelo Branco de chamar um sacerdote que sabia lidar com essas coisas de
investigação para descobrir sobre frei Candido e outras coisinhas mais.”
Agostinho sorriu.
“Aí me chega vosmecê na hospedaria. Com aquele ar misterioso.”
“Fiquei desconfiado.”
“Falei com Raimundo, que concordou, e mandei lhe vigiar.”
“E vosmecê nem percebeu, deve ser o calor”, falou sorrindo.
“Para piorar o senhor
começou a fazer perguntas ao estafermo do meu genro.”
“ Vosmecê saiu atrás dos tigres”.
“Muitos deles trabalham para mim”.
“ Para continuar sobrevivendo ficou combinado que eles tinham
que me contar tudo que acontece nessa
cidade de dia e de noite.”
“Foi para a birosca de Nego Zé, conversou com ele, e dele
nada tirou, pois Nego Zé é batuta.”
Agostinho sorriu.
“Contudo, como sabemos, “nem cu, nem língua de bêbado tem
dono, ele fala o que quer, e dá para quem ele quiser”, e o bêbado do Virginiano
Dendeca, um fanchono notório, contou
tudo sobre Candido Reis de Oliveira, suas mulheres e sua fortuna.”
“Do corno do Joaquim Garcia nada falou, porque dele certamente
nada sabia, mas eu sei e digo: é um aldrabão.”
Agostinho sorriu.
“E não sei se sabe, mas o somítigo Virginiano foi encontrado
morto boiando na praia de Santa Luzia. Doce coincidência, pois não?
Agostinho sorriu.
Manuel pigarreou...
“O que talvez vosmecê não saiba e que o filho da puta do
Candido metia aquela piça nojenta dele em qualquer buraco.”
“Entretanto o que vosmecê não sabe, nem Zaphira, nem
Catarina, é que era em qualquer buraco, pois o homem, também, gostava de uma
sodomiazinha e um boquete amigável com alguns rapazes alegres, como os
sacristãos Alfredo Prazeroso, conhecido como “la mano del ángel”, e Reginaldo,
o filho do Boticário.”
“Conheci os dois.”
“Catarina, minha filha, é uma mulher que sabe o que quer, e
“amor de pica é que fica”, foi ao encontro do filho da puta e de Zaphira e fez
um acordo, mas no domingo ele era da Igreja e dos rapazes alegres, como os
sacristãos Prazeroso e Reginaldo.”
“Uma surpresa”, falou Agostinho dos Santos.
“Qual é seu nome todo, padre?”
“Vossa Mercê seria um ótimo investigador da Santa Madre
Igreja, para a Santa Inquisição, sabia Dom Manuel?”
Manuel se espantou com o Dom, mas vá lá.
“Vossa Mercê é o vencedor.”
“Meu nome é de Frei Agostinho da Crucificação e do Santo
Sepulcro, e realmente fui chamado pela mãe de senhor Bispo.”
“Eu sabia”, falou sério o português.
“Frei Agostinho. Penso que se apertar os dois fanchonos vai
descobrir tudo sobre o crime. Não que eu queria ensinar o “padre nosso ao vigário”,
mas tenho convicção disso, pelas informações que tenho.”
“Agradeço, vou seguir essa linha, essa orientação.”
“Então está tudo esclarecido. Estamos acertados que as
senhoras não devem ser incomodadas, pois não?”
“Concordo. Dou minha palavra.”
“Ótimo.”
“Mais, tem um probleminha.”
“Qual?”
“Dona Ana Teodora quer saber da fortuna do finado.”
“Aperte os pirralhos que vai saber.”
“Novamente obrigado.”
“Onde estão as
senhoras”, perguntou.
“Vou mandar chamá-las.”
Chamou a senhora toda
de branco, com turbante colorido a cabeça, e mandou que ele avisasse as duas
que eles já estavam prontos para a merenda.
Os homens saíram para o jardim lateral em direção ao um caramanchão
onde uma mesa com sucos e quitandas já estava pronta.
As duas chegaram.
Para espanto de todos, Frei Agostinho se mostrou um grande
causeur, esbanjando charme, alegre, sorridente, e um apreciador dos sucos e
doces brasileiros.
Catarina, lá com seus
fetiches padrecais, ficou encantada, e vergonhosamente começou a dar em cima do
frade.
Zaphira vendo aquilo riu as gargalhadas, e o frade ficou mais
vermelho que um pimentão.
À noite, um Agostinho atormentado só repetia:
“Que mulheres. Que mulheres, ...raios...qual será a
melhor...raios...mas a que vier primeiro eu traço.”
No dia seguinte foi averiguar as informações de Manuel
Garcia.
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