10 ° capitulo As gravidezes
Frei Cândido era uma fera.
Gostava à beça de tchaca tchaca na butchaca e quase morreu
disso depois de comer um angu feito de farinha de mandioca com carne-seca e
banana.
O acordo entre Catarina e Zaphira funcionava bem.
Mais, as duas ficavam de butuca para ver se ele não mijava
fora do pinico.
Manuel Garcia começou a desconfiar que o santinho que sua
filha beijava nas orientações de frei Candide era outro, não São Manuel de sua
devoção, mas nada disse.
Sabia da história da afilhada com “Três Pernas”, e para
evitar o pior deu interesse no seu comercio a um parente, Joaquim Garcia, um
leso, candidato a corno, mas ambicioso de marca maior.
Aproveitou um almoço de domingo onde estava presente o frade
e comunicou o casamento de Catarina com Joaquim Garcia.
Silencio total.
Os brindes foram feitos.
Quando os convivas saíram, a rapariga que era muito atrevida
questionou ao pai.
“A senhorinha pensa que eu não sei do seu chamego com o
frade?”
“Pois sei.”
“E antes que aconteça o que aconteceu com Custódia, pois não
sou paspalhão como Cristóvão de Jesus, a senhora vai casar de véu e grinalda na
Igreja que frequentamos.”
“Joaquim nasceu para ser enganado, não vai ligar a mínima.”
“A senhorinha pode continuar empernando com o padreco que ele
não dará a menor bola.”
“Ele quer é ficar rico.”
“E sabe que eu morrendo a senhorinha é a única herdeira de
tudo que tenho, logo ele vai ficar com uma boa fortuna.”
“Além, do que já o fiz sócio minoritário em todos os meus
negócios, dei a ele interesses que ele nunca imaginou ter.”
“Mais, eu não quero me deitar com ele”.
“Nada que um bom dote não possa resolver”, falou o prático do
Manuel.
“Se é assim, vamos a patuscada.”
“É melhor a patuscada do que ser emparedada”, falou sério
Manuel.
Foi nessa hora, pela primeira vez na vida, Catarina Garcia
tremeu de medo vendo o olhar do pai.
Nesse Brasil Varonil existem muitas paredes, principalmente
de velhos conventos, que ainda escondem os esqueletos de mulheres gravidas e
seus fetos que foram emparedados a pedido das famílias.
Mais, numa cidade que tinha a ‘roda dos expostos’ emparedar
donzelas pecadoras não seria nada estranhos.
Ângela preferia ficar viva, casada com um corno, e empernada
com seu frade.
“Também, meu pai, como o senhor quiser”, falou a moça.
“É melhor assim. Vou eu falar com seu padreco, ou a
senhorinha fala?”
“Eu falo”.
“Então, está bem. Porque é ele que vai casar a senhorinha”.
Pairou o silencio.
O Casamento foi uma festa de arromba.
E a vida continuou...
E assim, tanto Catarina quanto Zaphira, ficaram gravidas ao
mesmo tempo.
Nesse meio tempo morreu frei Américo Bordallo.
Sua fortuna estava enterrada no chão do quarto do frade na
Casa Paroquial.
E Frei Cândido se apossou dela.
Candido comprou Zaphira de Nego Zé, o dono da birosca e
cafetão atuante no pedaço.
Montou uma casa no sopé do Morro do Livramento para ela, e
comprou para o serviço duas escravas nas mãos de um dos mercadores de escravos
do Valongo.
O Valongo era delimitado ao Norte, pela Baía de Guanabara, ao
Sul, pela Rua Larga de São Joaquim (atual Avenida Marechal Floriano), ao Leste,
pela Pedra da Prainha (atual Pedra do Sal), e ao oeste, pelos sopés do Morro do
Livramento e Morro da Saúde.
A enseada era formada por duas praias: Vallongo e
Vallonguinho.
A praia do Vallongo estendia-se entre o sopé do Morro do
Livramento e o Morro da Saúde, enquanto a praia do Vallonguinho correspondia a
um pequeno trecho de areia no sopé do morro da Conceição - neste trecho chamado
de Morro do Vallongo, entre o Morro do Livramento e a Pedra da Prainha.
O traçado desta antiga costa ainda pode ser visualizado a
partir do atual traçado das ruas Sacadura Cabral e Pedro Ernesto, que
correspondem aos antigos caminhos adjacentes às praias.
A região foi pouco povoada nos primeiros séculos de vida da
cidade, mas adensou-se consideravelmente no século XVIII, quando passou a ser
usada por mercadores de escravos, para lá transferidos das imediações da atual
Rua São José, por ordens do Vice-rei Marquês do Lavradio.
De Catarina Garcia e Garcia, oficialmente de Joaquim Garcia,
nasceu Manoel Francisco Garcia.
De Zaphira nasceu Gracinda dos Anjos.
E aqui começa uma grande história, que acabou em um Crime
Carioca no Aprazível Brasil Joanino.
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